Em período de forte tempestade marítima ao longo de toda a costa portuguesa, recordamos uma raridade bibliográfica ajustada à ocasião, que supomos datar dos princípios do século XX: o manual de manobras e instruções do carro portuense para socorros a náufragos, da autoria de José de Brito, 1.º Patrão do Estado Maior dos Bombeiros Voluntários do Porto e Sócio Honorário do Instituto de Socorros a Náufragos.
Além da reprodução da respectiva capa, que compreende uma interessante gravura temática, apresentamos duas não menos elucidativas imagens que documentam aspectos distintos do mencionado carro, assim descrito pelo autor:
"Construído e baseado no antigo modelo de carros para incêndios, do meu saudoso instrutor Guilherme Gomes Fernandes, conduz este carro todo o material necessário para o fim a que se destina, sendo o pessoal constituído por um piquete de seis bombeiros e um cocheiro.
Todo o material está colocado no carro, em condições de se retirar para qualquer das manobras isoladamente, tendo as rodas 2 aros próprios a poder seguir sobre areia ou estrada."
Muito completo para a época, o manual contempla diferentes ensinamentos técnicos acerca de manobras, sinais e cuidados médicos, estes da responsabilidade do Dr. Pedro Vitorino Ribeiro, Chefe Adjunto Médico da Corporação dos Bombeiros Voluntários do Porto, que assina uma parte intitulada "Breves instruções para socorro em caso de morte aparente".
Recorde-se que a acção dos bombeiros portugueses neste domínio teve o seu início em 1870, antecedendo a criação do Real Instituto de Socorros a Náufragos, fundado a 21 de Abril de 1882. A partir desta data desenvolveu -se uma nova realidade, em estreita cooperação com o referido instituto que, entretanto, passou a garantir a distribuição de material pelos corpos de bombeiros, nomeadamente cabos de vaivém. Já no século XX e em razão da prontidão sempre revelada, a participação dos bombeiros alargou-se a outras áreas, envolvendo o apoio e o reforço da vigilância nas praias, bem como nos rios, nas barragens e nas albufeiras. Nesta conformidade, o aumento da responsabilidade no socorro deu origem a novas exigências, sobretudo, ao nível da formação, a qual se tornou mais intensa e assumiu, a partir de dado momento, o carácter de vertente especializada.
Pesquisa/Texto: Luís Miguel Baptista